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  • Deise Jacinto




..e o sol que entra pela fresta aumenta a graça de ir lá fora.







Já reparou quando um facho de luz entra pela fresta entreaberta da janela? Nas manhãs geladas de São Paulo, meus gatos disputam o quadradinho de sol que essa luz forma sobre o tapete. Eles tem muita vontade de sair, sentir a rua e o sol por mais tempo. O problema é que os meus e todos os gatos domésticos são eternas crianças fofas e irresponsáveis.   Moro em um apartamento com menos entrada de luz natural do que gostaria. Quando vejo um pequeno raio invadindo a sala, me lembro instantaneamente do tamanho necessário do sol. Lembro do seu calor sobre a minha pele, lembro da sua textura confortável, até sobre a vitamina D eu reflito. Lembro também que preciso sair de casa e deixar seus raios me tocarem por  mais tempo, e mais pele. Às vezes eu vou, e fico nele o tempo suficiente para não me queimar. Às vezes, mesmo o querendo, ignoro sua voz. E quando preciso ficar no sol por mais tempo do que gostaria, uso filtro solar. Eu conheço pessoas que tem medo de colocar a cara no sol. São até tocadas pelos seus raios, mas fogem dele a vida toda. Quase sempre são pessoas pálidas. Sem cor. Por vezes, além do medo de tentar o sol, também é preguiça, outras vezes costume. Outras é falta de filtro apenas. Não sabem ainda como desenvolve-lo em si. Esperam que alguém ou algum lugar seja seu filtro de proteção. Obviamente o medo é sempre do desconhecido. De não dar conta do que vem pela frente. Sim, é natural e até compreensível. Aqui refletindo sobre isso, penso que precisamos aprender a notar em nós se aguentamos segurar as aventuras que batem à nossa porta. Se descobrirmos como desenvolver nossos filtros morais/espirituais, absolutamente inegociáveis, que entrarão em ação assim que o sol começar a tostar nossa pele, estaremos de fato seguros. Olhar pra dentro, e procurar nossos pilares, é um exercício de maturidade. Corremos com frequência o risco de ser enganados pela mesma inveja e palidez do filho que ficou.  Inveja do irmão que teve coragem de ir, coragem de botar a cara no sol e assumir suas consequências.  Talvez, para o filho mais velho da parábola de Lucas 15, lhe faltasse romper a infância. De reconhecer em si um menino birrento por não assumir suas vontades. Talvez também quisesse o sol com toda a sua intensidade.

Se fosse de encontro ao sol provavelmente nem voltaria. Morreria queimado por suas labaredas. Ou quem sabe voltaria a tempo de deixar o pai curar suas queimaduras, como fez o filho mais moço. Ou talvez ainda, descobrisse um lugar confortável ao sol. Não há como saber. Até onde sabemos, ele nunca foi. A questão é que esse filho não estava fora, experimentando suas vontades mais intimas e dentro também não estava inteiro. Dentro também não era completo. Estava em um aposento vazio. Uma sala escura e gelada que ele mesmo construiu. Cada dia nesta sala lhe pareciam 100 anos luz de distância da vida, distância do sentido, do motivo. Ali, mergulhado no vazio, ele alimentava a raiva, a inveja do seu irmão, e a distância do seu pai. Apenas o escuro da falta de sentido era sua companhia na mesa de jantar. O problema nunca foi o sol, o problema nunca foi a volta do irmão "queimado", o problema nunca foi a casa do pai. O problema sempre foi não querer sair da sala fria. O problema sempre foi alimentar o menino frágil, que não quis erguer dentro de si os filtros de proteção. A sala vazia não nos tirará da infância, na sala vazia não há luz  e ela também não será nosso filtro. Na sala vazia ninguém cresce. A pergunta que fica é, onde vamos escolher estar? em uma sala gelada, vendo um raio de sol de longe, achando estar protegido?  ou se fortalecendo, se preparando para sentir o calor de uma vida inteira? ...eu que decidi ficar, te sirvo desde criança. Mas não sei o que é voar e não aproveito a minha herança...

Um bom final de semana!

bju

Deisica

#cartasparahoje

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  • Deise Jacinto

Atualizado: Fev 29

desta vez me dei o direito de só cantar.

com toda a minha alma, com toda a voz que um dia eu engoli.

sempre achei meu canto muito sem brilho, fosco. achei que seria melhor me olhar/fugir como compositora. 

assim minha voz poderia se esconder atras de um texto pacientemente pensado.

escrevendo eu não gaguejo, não engasgo, não falta o ar, posso voltar, apagar e esconder minhas fraquezas. 

mas no fundo, dar mais valor à compositora e se esconder atrás do violão, era só medo de mostrar a vulnerabilidade na textura da minha voz. 

sair deste lugar confortável e se expor para ser visto de verdade não foi um processo fácil, nunca é.

a professora maravilhosamente exigente que me ajudou, disse: chega de brincar de cantar! cante de verdade!

juro que cantei Amélia, juro. 

um viva aos professores que sabem cavar e achar as vozes escondidas no fundo da alma! #Cicatriz #25deoutubro



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  • Deise Jacinto

Este é um quadro comum, muito vendido em lojas on line. Ainda não descobri seu autor. O tenho a algum tempo aqui em casa, e sempre que estou em agonia eu olho pra ele. Por algum motivo essa tela digital me devolve pro meu eixo.

Não tenho dúvida que a arte é Deus repartindo sua beleza conosco. Eu sinto que Ele fala comigo de muitas formas.

Só de pensar nas vezes que Deus já falou e me mostrou um pedacinho da sua face através da arte, eu me emociono.

Parafraseando Roockmaker, a arte é como o encanamento de uma casa, não notamos sua presença no dia dia, mas sem ela a casa não é casa.

Já senti o amor de Deus em lugares improváveis. Uma noite deitei no tapete da sala sozinha, o Juca, meu gato veio e se aninhar ao meu lado, fechei os olhos e ouvi com atenção essa música do Djavan:

O amor é um grande laço

Um passo pra uma armadilha

Um lobo correndo em círculo

Pra alimentar a matilha

Comparo sua chegada

Com a fuga de uma ilha

Tanto engorda quanto mata

Feito desgosto de filha

Chorei. Porque diante da imensidão do amor o que sobra?

Eu tenho andado um pouco angustiada por esses dias, sentindo que o chamado que Deus me fez é maior do que posso aguentar. As vezes sinto medo, as vezes euforia.

Assim como provavelmente você, eu venho de um ambiente religioso. No meu caso, do lado protestante, histórico, conservador. Por algum motivo que ficou nas entre linhas dessa estrada, eu aprendi que escutar música produzida fora do ambiente religioso era pecado, que estaríamos nos colocando em perigo espiritual.

Hoje eu entendo melhor porque isso SEMPRE me incomodou. Simplesmente porque não é verdade.

A verdade é muito mais dolorida, e difícil de dizer. A verdade é que a fé que foi regada em nós, e que a gente prefere alimentar é muito frágil e precisa ser contida dentro de um aquário, porque a gente não suporta o oceano.

A gente não suporta que Deus também (e hoje principalmente) está fora das igrejas. A gente não aguenta descobrir que Deus ama quem a gente odeia. Dizemos em canções e sermões que Deus é amor, mas pra gente TODO E QUALQUER amor NÃO É DEUS. E eu como artista que prometi dizer a verdade, não posso mais me calar.

Quando fiz a música Final Feliz eu disse à Deus que faria sua vontade e pedi sinceramente que Ele alargasse as minhas fronteiras. Ele está fazendo sua parte, e eu preciso seguir meu coração, pois


conservado nele, está este sincero pedido que me trouxe até aqui.

Recentemente, depois de uma madrugada de dor, precisei às pressas, ir para o hospital retirar minha vesícula. Depois da cirurgia fui me recuperar no interior, em um lugar em meio a natureza onde sempre me traz paz.

Lá, realinhei meus objetivos, me reencontrei com meu chamado e tomei algumas decisões importantes.

Decidi sair da Sony Music Gospel, gravadora por qual eu tenho imenso carinho, que sempre entendeu minha sede pela liberdade e que me ajudou muito a crescer.

Olhando para os lados, e não encontrando uma casa que hospedasse minhas canções livres, decidi construir sua morada do zero.

Desde o começo do ano a @mangapitangamusic já atua como editora, cuidando e administrando obras e seus direitos autorais para compositores. Agora a Manga Pitanga também será um selo, uma casa para cantaautores livres.

Estou aqui fazendo questão de explicar, por carinho a vcs que me acompanham.

Estou aqui pra dizer que comecei um caminho novo e ele será de canções vivas, livres e abertas. Capazes de serem entendidas e cantadas por todos. Continuarei falando dEle, o amor.

Deus é oceano... o mesmo do Djavan. Este é o nome da playlist que criei pra vc descobrir a vida, o amor, a saudade, a fé e tudo que for humano, pois não há nada mais divino que o humano.

Estou muito animada com este novo desafio e a primeira canção que vou lançar representa este recomeço, soa como despedida. Chora como despedida, e é.

Uma despedia de uma ilha e um reencontro com o oceano.

#cicatriz #25deoutubro


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