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  • Deise Jacinto

Todo mundo é um pouco Aurora


Meu desejo de escrever não é de infância. Escritor nunca foi uma profissão cogitada dentro da minha realidade. Essa vontade começou a brotar quando me deixei ser artista e dei espaço para outras habilidades nascerem. Isso é muito recente.

Sempre fui intimidada pelo fantasma da ortografia e da gramática. Na escola, nunca foi um assunto lembrado com amor. Sempre muito estranho, não consigo me recordar sequer do rosto de alguma professora de português. Comecei a gostar de ler perto dos 20 anos. E pra ajudar, na comunidade religiosa que cresci não era recomendado ler escritores seculares. Obviamente quanto mais simples e sem escolaridade é uma família, mais a religião tem influência sobre ela. Desse modo, literatura era uma coisa muito distante, absolutamente inacessível dentro da minha realidade de família pobre morando na roça.

Nunca fiz o teste, mas acho que tenho dislexia ou déficit de atenção. Só consigo me concentrar com protetores auriculares. Por isso, escrever um livro foi um desafio enorme para mim. Precisei vencer uma insegurança por dia. E foram 2 anos!

Primeiro sobre o tema. Queria contar uma história que partisse das mulheres da minha família e de como precisaram enfrentar algumas coisas essenciais da vida de maneira muito solitária. Comecei a notar a solidão como algo inerente à mulher. Uma companhia em que se acostuma a viver e passa a achar natural. Percebe que todas as mulheres da sua casa também se viraram assim e mudar parece algo ofensivo e imoral.


Aurora cresce tendo essas mulheres como referência. O abandono já lhe atinge logo cedo. Esse abandono faz com que sinta mais profundamente quando suas pessoas vão embora. Afim de tentar curar de alguma forma essa falta, ela tem dificuldades em desbravar um caminho seu. Não quer ser quem abandona também e assim vive a vida de outra mulher.

Me parece que a culpa é algo que cola fácil na gente. Nos entregamos nos pequenos detalhes: agradecemos quando o marido faz uma tarefa doméstica que julgamos ser nossa função, nos sentimos culpadas por trabalhar demais e não conseguir cuidar (uma palavra que nasceu colada na mulher) de tudo perfeitamente, e tantas outras coisinhas que estão enraizadas no “ser mulher” que já não notamos e nos pesam demais. Queria falar desse peso, queria falar que ele cansa e que essa dança não é alegre.

Enfim, falar desses assuntos era um desejo, mas ainda precisava achar o melhor jeito de contar essa história.


Escrevi do meu jeito (chato) 60 páginas de word. Ao começar a estudar com autores mais experientes, descobri que a literatura é muito mais livre que pensava. Que meu texto poderia ser mais solto dos padrões que eu lia. Joguei tudo no lixo e comecei novamente.

Percebi que não precisava deixar meu ritmo de compositora tão de lado assim. Sempre flertei com a poesia nas minhas canções. Mas dentro de uma narrativa maior o ritmo do texto é outro. Mas ainda tem música!

Ajustei minhas referências e minha voz e consegui achar um começo de caminho. Começo porque é meu primeiro livro, ainda tenho muito a crescer, muito! Mas este pequeno livro já é uma obra que me orgulha muito.

Passei (muitas vezes chorando) por temas delicados demais e foi de fato uma terapia intensa escrever esta história.

A poesia me acompanhou nessa narrativa como me acompanha nas canções.

Aurora é o alter ego bem mais resolvido que eu rsrs

A canção que eu não queria mais ouvir é uma canção que muitas pessoas vão se identificar. Nos seus versos tem o abandono o luto a fé e o perdão.

Todo mundo é um pouco Aurora. 

Se quiser conhecer mais sobre ela, clique aqui! ;)


Um bju até o próximo texto!


Deisica

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